Quando tivemos acesso a um primeiro caso de um casal que tinha que se isolar um do outro, por protecção devido ao Covid-19, ficámos com o coração apertado e a sentir-nos pequeninos. Procurámos colocar-nos no lugar deles. Passar a quarentena sem a cara-metade é algo que nunca nos passaria pela cabeça, porque podemos ter essa sorte. Há quem não a tenha. Pensámos que tínhamos que ajudar, mas ao mesmo tempo sentimo-nos algo impotentes nessa ajuda. Foi então que nos ocorreu uma forma de enviar uma espécie de abraço virtual, ao tentar dar algum consolo a quem vive esta situação: partilhar testemunhos de quem está a passar por isto. Não estás, de todo a passar por isto sozinho/a! O que vais ler são testemunhos reais de vários casais que passam a quarentena afastados.

A quarentena sem a cara-metade

A quarentena sem a cara-metade

Maria 27, Lisboa

       A Maria e o Jorge conheceram-se através do Twitter. Namoram desde o dia 4 de Maio de 2019 «ou seja, o nosso primeiro aniversário de relação vai ser durante esta loucura», conta-nos. «Apesar de ser uma pessoa que odeia fazer planos de antemão, estamos a planear começar a viver juntos para o ano e o casamento está nos nosso planos, quando a conta bancária assim o permitir». Neste sentido, desenganem-se se acham que o problema para ela é a relação à distância, só por si.

Eu já tive relações à distância, inclusive, quando fui de erasmus. No entanto, comparando as situações, sem querer comparar, esta separação está a custar-me mil vezes mais.”

A quarentena sem a cara-metade

       «Acho que a razão é que agora não existe uma data para que isto acabe e voltemos a estar juntos normalmente». Nas partilhas de testemunhos que nos enviaram é comum pensar-se que este afastamento social está a custar mais do que outras experiências em que o casal pudesse estar afastado, porque desta vez a pessoa está já ali ao lado, disponível e acessível, ainda que não possa haver contacto. «As soluções acho que foram as que toda a gente arranjou: telefonemas e vídeo-chamadas que ajudam o tempo a passar e que nos dá a falsa sensação de estarmos juntos. O Jorge chegou a vir à minha janela para me ver e conversar um bocadinho (o que nos valeu o título de Romeu e Julieta dos tempos modernos entre os nosso amigos)». Esta é a mais pura realidade, porque a Maria é uma amiga nossa e foi ela que representou para nós o primeiro casal a sofrer da dura distância do isolamento da cara-metade, nesta quarentena.

       «Quando passou um mês de quarentena e tivemos a certeza de que nem nós, nem as pessoas com quem vivemos apresentavam sintomas, arriscámos em passeios sem contacto, o que dificulta ainda mais – imaginem estarem com a vossa cara metade sem puderem dar um beijinho!». Ela pede-nos que imaginemos, mas sinceramente não conseguimos. Nem conseguimos pensar nela a abrir a porta da rua e ver uma lancheira com pataniscas e tarte de limão que ele lhe trouxe, sem se aproximar dela. Deixa-nos de coração apertado e a esperar que tudo corra bem neste próximo dia 4, já que ela nos contou que combinaram um «jantar dentro do carro, para assinalar o 1º ano de namoro».

 

Daniela 32, Gondomar (Porto)

       A Daniela e o Carlos começaram a namorar em 2004 (este ano comemoram 16 anos de namoro!). Ela tinha acabado de fazer 17 anos e ele 19. Nem um ano passou e ele voluntariou-se para a tropa, pelo que foi quando começou um namoro à distância, quase um namoro de fim-de-semana. Esta situação durou 7 anos, onde pelo meio houve uma missão no Kosovo sem vinda a Portugal, por 6 meses. Neste sentido, a distância já havia existido, mas desta vez o sentimento é diferente. Entre as várias tropelias da vida, ainda não conseguiram começar a morar juntos. Afinal, os preços para casas não estão nada convidativos. Assim, se já antes se continuavam a ver, em regra geral, ao fim-de-semana (quando conseguiam conciliar horários), agora não se vêem de todo. Ela pertence ao grupo de risco, e ele, por já a ter visto e cuidado dela com graves crises asmáticas, quer protegê-la. Isto fez com que preferissem manter-se afastados na quarentena, até porque ele continua a trabalhar fora de casa. A Daniela contou-nos que «às vezes (ele) vai ao supermercado quando sai do trabalho e deixa as compras cá em casa, mas deixa à porta… Falamos pela janela.».

Eu gozo e digo que estamos pior que os velhinhos. Ao menos eles nesse tempo de namoro à janela ainda roubavam um beijinho ou outro… Nós não. A sensação que tenho é a estarmos zangados, sem nos termos zangado. Não nos tocamos, não há carinho, um beijo…”.

A quarentena sem a cara-metade

       Adianta-nos que «Ele brinca e diz que passámos por pior quando esteve no Kosovo. Talvez porque ele não está fechado em casa, não sente tanto. Eu acho pior saber que estamos tão perto e tão distantes ao mesmo tempo». Por fim, escreveu-nos: «Tomei a decisão de que assim que tiver que voltar ao trabalho, quero estar com ele. Sei que corro muitos riscos ao voltar ao trabalho e acho que só consigo superar esse receio estando com ele, ainda que novamente só ao fim-de-semana». Revimo-nos muito no seu discurso:

Não é o facto de não podermos sair que me incomoda. Eu adoro estar em casa, arranjo sempre coisas e formas de me entreter, mas sinto muito a falta dele. É o meu maior suporte.”.

       À parte da questão amorosa, há um medo comum. Com a Daniela vive o pai de 64 anos e a mãe doente cardíaca, pelo que o facto de ela voltar ao trabalho, apanhar transportes públicos e atender o público, tem medo de apanhar o vírus. «Penso logo que, voltando ao trabalho, vou chegar, tomar banho e fechar-me no quarto (…). Se acontecer comigo é uma coisa, mas saber que passamos a outra pessoa e pomos as suas vidas em risco é um turbilhão de emoções (…). Até lá vou-me entretendo (…) e espero até à noite para fazer chamadas, vídeo-chamadas, entre dias em que às 23.30h já estou a dormir e outros em que às 8h ainda estou a deitar-me».

 

Paulo 27, Loures

       O Paulo e o João namoram há cerca de 5 meses e tem sido tudo um mar de rosas, como se costuma dizer. Até já encontraram uma casa para alugar, só que precisa de obras, o que, devido à situação que se vive, não é fácil de conseguir, pelo que ainda vai demorar algum tempo. Conta-nos que «Passar de estar com a pessoa dia sim, dia sim, para uma incógnita, é de facto estranho e magoa. Sentes que falta algo…». No caso do Paulo, a rotina profissional continuou a mesma. Só que a verdade é que ninguém vive para o trabalho, não é?! «Faz falta socializar, faz falta namorar». Os dois fizeram anos em Março e não puderam celebrar juntos, como seria de esperar. «Fazer anos em Março e não poder estar junto de quem mais amo foi deveras estranho», conta-nos. No entanto, quer deixar uma mensagem positiva a quem está a passar por isto:

São os pequenos gestos que contam! A criatividade é o nosso maior aliado! À meia noite vir à entrada do meu quintal e encontrar a minha cara-metade com um bolinho caseiro e uma vela acesa… Foi a melhor prenda do mundo! Foi uma celebração a dois. Pequenos gestos, grandes emoções!”.

A quarentena sem a cara-metade

       Deixa também claro duas mensagens distintas. Se por um lado, está tudo bem em não estar tudo bem e temos que viver um dia de cada vez, consoante o que sentirmos. «Só tenho vontade de pegar no carro e ir ter com ele, mas não pode ser assim. Temos que ser fortes e dar o exemplo, senão isto nunca mais termina!». Por outro lado, conta-nos que espera vê-lo muito em breve: «Claro que com a devida precaução e cientes do perigo que é esta doença. Não há uma normalidade para já. Até lá, um simples telefonema, uns jogos online e umas vídeo-chamadas para matar a saudade!». Nuns dias podemos assumir que nos sentimos mal e procurar apoio nos nossos, da forma possível, noutros dias podemos gritar a fé que cada um de nós tem de que isto vai passar! Porque vai passar. E vocês todos serão a versão moderna e bonita de casais a namorar à janela. Que todos tenham finais felizes!

 

Todas as imagens deste artigo são do site canva.com para proteger a identidade de todos os que deixaram o seu testemunho.

Blogue Ela e Ele

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